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Tio Saddam
9 Novembro 2006Um dia eles aprendem
9 Novembro 2006Até que enfim o eleitorado americano resolveu tomar vergonha na cara e impor pelo menos uma derrota ao Bush nesses seis anos. Depois da Guerra do Iraque, do Ato Patriótico e da Legalização da Tortura, finalmente decidiram que esse Congresso não servia mais, e trocaram boa parte deles.
Quer dizer, não que os democratas sejam lá grande coisa. Mas qualquer coisa é melhor que o Bush, convenhamos. Então, quase todas as vezes em que ele perde, o mundo ganha.
E que seja o primeiro passo para que os Estados Unidos resolvam fazer parte do mundo efetivamente. Mas não do mundo “tabuleiro de war” que eles acham que podem dominar. Um mundo multilateral, que privilegie as soluções negociadas. Que tal começar assinando o Tratado de Kyoto, hein?
Rumo ao cadafalso
5 Novembro 2006O ex-ditador Saddam Hussein foi condenado ontem, pelo Tribunal Superior Penal do Iraque, à morte por enforcamento. Saddam foi considerado culpado pelo assassinato de 148 xiitas, em 1982.
No mérito do julgamento, acho que não há discussão. Eu não estava lá, mas acho altamente provável que o Saddam seja mesmo o responsável por essas mortes e mereça ser punido por isso.
Mas dois pontos precisam ser levantados. O primeiro, mais filosófico, diz respeito ao fato de um país passar por tantos anos de violência e ainda assim decidir por inserir a pena de morte em seu ordenamento jurídico. Parece que não se aprende nada com os erros do outro.
Como já dizia, brilhantemente, Machado de Assis:
“Tão certo é que a paisagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão.”
O segundo ponto é um pouco mais, digamos, jurídico. Trata-se da legitimidade que tem um tribunal para julgar um criminoso, em um país sob ocupação internacional. Que garantias há que o funcionamento do judiciário iraquiano não esteja sendo influenciado, ou mesmo dirigido diretamente, pelos americanos?
Em uma situação como essa, é possível questionar fortemente se os julgamentos produzem o resultado almejado pelo povo e pelas leis iraquianas, ou o que é politicamente mais interessante ao invasor.
Acredito que uma decisão dessa magnitude só possa ser tomada legitimamente em um país auto-governado, o que não é o caso. Mas, enfim, não é a primeira, nem será a última ingerência americana no mundo.
Para lá de Bagdá
20 Outubro 2006Em sua já conhecida cruzada para me irritar e me deixar revoltado, o presidente George W. Bush demonstrou, juntamente com o congresso americano, que sua mente limitada é capaz de coisas mais absurdas do que se imaginava.
No começo da semana, o Congresso dos Estados Unidos, terra da liberdade, aprovou o projeto de lei encaminhado por Bush que torna válidas as provas obtidas sob tortura, quando se tratar de caso de suspeita de terrorismo.
E o que isso significa? Para deixar o parágrafo curto, vamos resumir: é pegar o Estado de Direito, e jogar no chão, rasgar, botar fogo, pisar e ainda cuspir em cima. É o fim dos tempos. Dá quase vontade de desistir. Como? Como é possível que a maior democracia do mundo admita explicitamente em seu ordenamento a tortura?
Porque até agora, ok, os americanos mantinham árabes presos em Guantánamo sem acusação formal, e isso era um absurdo mesmo dentro do sistema americano. Ou seja, as coisas estavam erradas, porque violavam inclusive as leis do Tio Sam. Agora a coisa muda de figura.
Fosse um país qualquer, e certamente já teria sido proposta uma sanção violenta pelo Conselho de Segurança da ONU. Mas as negociações multilaterais ainda sofrem do velho problema dos “dois pesos e duas medidas”.
Mas apesar de revoltado, não estou exatamente surpreso. Acho que, como disse muito bem o irmão de uma amiga minha, o mundo está aos poucos ficando cada vez mais totalitário…
Agora faz sentido
24 Setembro 2006Na época das invasões dos EUA ao território afegão, após o 11 de setembro, ninguém entendeu direito porque o Paquistão, país islâmico dos mais radicais, estava apoiando assim tão intensamente as pretensões do Bush. O mais natural seria que apoiassem os islâmicos afegãos, ou, no mínimo, mantivessem a neutralidade.
Pois cinco anos depois as coisas começam a fazer sentido. O governo do Paquistão revelou, nessa semana, que um alto funcionário da Casa Branca teria dito, como forma de “convencimento”, que os EUA poderiam fazer o Paquistão voltar à idade da pedra, se quisessem. Parece que o governo de Islamabad resolveu não pagar para ver…

(O ditador paquistanês Pervez Musharraf recebe Bush no Paquistão. Só agora se revelou o motivo de toda essa boa vontade)
Unidos para salvar o Morto
10 Junho 2005Isso é tão raro que é bom anunciar. Isralenses e Palestinos concordaram em pelo menos um tema: precisam salvar o Mar Morto. Há vários anos, o grande lago salgado vem sofrendo assoreamento das margens e diminuição do volume de água. A solução, aventada pelos dois lados, seria construir um grande duto que bombearia água do Mar do Sinai, fonte inesgotável. Os planos, contudo, são a longo prazo. Mas seria uma boa se esse problema abrisse um canal de negociação permanente entre os dois lados, levando o assunto para campos mais políticos que a simples construção de um canal.
Racionamento nos postos
9 Junho 2005A crise na Bolívia tomou proporções bastante sérias. O presidente foi afastado, a população tomou as ruas. Uma das principais bandeiras da oposição é o rompimento do contrato de fornecimento de gás natural ao Brasil. Então, eles ocuparam as centrais de captação de gás e ele parou de ser enviado às terras tupiniquins. O problema é que 60% do gás natural consumido no Brasil vem da Bolívia, e a Petrobrás não tem grandes estoques do produto. Se a situação não se resolver, o gás vai começar a ser racionado. E como os carros que usam o combustível também rodam com gasolina, serão os primeiros afetados, pois são menos prejudicados do que, por exemplo, a população que usa gás de rua. No entanto, parece que os rebeldes já concordaram em liberar aos poucos a exportação. Vamos ver se dá tempo de fazer isso antes do colapso.
Olimpíada francesa
7 Junho 2005O Comitê Olímpico Internacional apontou ontem a cidade de Paris como a grande favorita para ser a sede dos jogos olímpicos de 2012. Segundo o COI, o projeto parisiense foi o melhor dentre os recebidos. Em segundo, ficou o de Londres. Um pouco mais atrás, Madri e Nova Iorque e, em último, Moscou. No entanto, essa ainda não é a decisão oficial, mas uma análise prévia. A eleição se dá no começo do mês de Julho. Só para lembrar, no ano passado foram selecionadas essas cinco cidades dentre nove, entre as quais estava o Rio de Janeiro. A candidatura carioca fez os membros do COI praticamente caírem na gargalhada, já que a cidade não tem a menor condição de receber um evento deste porte, especialmente enquanto parte do território estiver sobre jurisdição dos traficantes e não do governo Rosinha. O Rio venceu São Paulo na disputa interna, em uma eleição cheia de acusações de injustiça. Quase 70% dos votantes eram cariocas. Mas mesmo que São Paulo tivesse levado, seria muito difícil ficar entre as cinco. A cidade tem graves problemas ambientais e de transporte, dois elementos que o COI leva muito em conta na escolha.
Puxando o tapete
3 Junho 2005A tarefa de Brasil, Alemanha, Japão e Índia, que desejam obter assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU, não será tão fácil quanto parecia. O governo da China, um dos atuais cinco membros, já disse que não vai aprovar a expansão. E aí a coisa complica, porque no modelo forjado pela Carta da ONU de 1945, os membros permanentes do CS têm poder absoluto de veto, ou seja, se um não quiser, não rola. A esperança das diplomacias dos quatro países postulantes é agora convencer os chineses a pelo menos se abster na votação, que não tem data para ocorrer.
Cada dia mais absurdo
2 Junho 2005A Anistia Internacional descobriu que o caso dos prisioneiros de Guantánamo é pior do que se imaginava. Além de ficarem presos sem saber qual a acusação, em celas que lembram jaulas de macacos e sem qualquer contato com qualquer outra pessoa, o que por si só já violaria uns 173 pactos internacionais de direitos humanos, os americanos ainda submetem os islâmicos a sessões de desrespeito ao Alcorão. De acordo com informações divulgadas pela organização internacional, nos interrogatórios, para fazer os árabes falarem, alguns soldados americanos chegam a urinar em cima do livro sagrado muçulmano. Isso é tão absurdo que estou com dificuldades em encontrar uma palavra forte o suficiente para descrever a situação. Mas já deu para sentir o drama. O governo americano disse que não tem conhecimento do fato, que isso pode até ter ocorrido, mas foi fato isolado, que não faz parte dos procedimentos-padrão. Bom, só faltava eles dizerem que é normal, e sempre fazem isso. Não há mais esperanças em se encontrar qualquer tipo de razoabilidade em um governo republicano.
Abriu a porteira
2 Junho 2005Em votação realizada ontem, os holandeses rejeitaram a Constituição Européia, por um percentual ainda maior do que o constatado na França, semana passada: foram 62% os partidários do “não”. O primeiro-ministro, como Chirac, se disse chocado e chateado. Especialistas, contudo, alertam para o fato de que os motivos que levaram à rejeição na Holanda não é o mesmo dos franceses. Lá, a votação foi resposta aos problemas do povo com o presidente. Na Holanda, contudo, o principal motivo que levou ao resultado negativo foi o medo de que se perdesse a autonomia para o estabelecimento das políticas sociais polêmicas que o país adota, como a permissão da eutanásia. A Constituição, afinal, por sua natureza legal, prevaleceria diante das leis locais. Isso é só um sinal de que o projeto precisa ser muito discutido antes de ser aprovado por todos os membros. A União Européia é um bloco, mas as especificidades dos estados nacionais terão de ser respeitadas, ou o povo não vai aceitar a adesão.