
















Passam as semanas e o noticiário continua a informar diariamente o número de vôos atrasados, o percentual de pessoas atrasadas, as medidas que o governo parece tomar para resolver o problema dos controladores de vôo.
Não há dúvidas de que a situação é delicada. São anos de contingenciamento de despesas para o setor, causados pelos doze anos de política fiscal rígida. Todo mundo defende com unhas e dentes a redução do gasto público. E quando descobrem que ele realmente ocorreu em vários setores, ficam todos revoltados, preocupados com o coitado do controlador de vôo que ganha pouco.
O governo é o grande culpado, sem dúvida. Opções erradas, vista grossa para os diversos avisos de que o setor estava em crise.
Quem perdeu dinheiro com os atrasos, deve sim procurar as companhias e pedir delas o ressarcimento. Elas que corram atrás do governo depois. Meus parcos conhecimentos me fazem crer que a compra de passagens aéreas é relação de consumo, o que faz a empresa ser responsável por problemas mesmo sem culpa.
Agora, o que me motivou mesmo a escrever sobre isso é teor dramático das reportagens sobre o assunto. Na semana retrasada, apareceu uma moça chorando porque seu vôo só ia sair no dia seguinte, e assim ela ia perder um dia em sua lua-de-mel. Outra ia visitar a irmã nos Estados Unidos, que ela não via há 2 anos, e seu vôo atrasou 6 horas. Desespero total, saudades da irmã.
Como eu já disse acima, sem dúvidas quem se sentiu lesado tem todo o direito de pedir ressarcimento tanto do valor pago quanto das eventuais perdas sofridas: negócios perdidos, contratos não renovados, e por aí vai. Afinal, contratou um serviço que não foi devidamente prestado. Agora, tratar essas pessoas como se fossem uns coitados, sofredores, aqueles para quem a vida virou as costas, oras, é um exagero totalmente descabido.
A mocinha vai perder um dia da lua-de-mel? Chato, sim. Mas quantos não podem nem sonhar com uma coisa dessas? A outra vai demorar seis horas a mais para ver a irmã? Mas já esperou 2 anos! Parece que esse povo nunca passou pela Rodoviária do Tietê antes de feriado. Ou parece que nunca viram as filas nos terminais de ônibus todos os dias pela manhã.
Tem gente morrendo de fome, mas o revoltante é a criança esperar 4 horas a mais para ir para a Disney. Acho que o enfoque está muito errado. A imprensa transforma tudo em show. E as pessoas perderam um pouco a noção da gravidade das coisas.

Ouvi um comentário hoje que entra para a famosa série “eu ouço cada coisa que as vezes dá vontade de desistir da humanidade”.
Num almoço de família, um certo primo de segundo grau me sai com essa: “sabe, esse ano no Natal eu não vou doar panetone nem cesta básica para ninguém. Onde já se viu? Votam no Lula! Colocam aquele ridículo para governar o país! Merecem estar onde estão, e depois vem me pedir ajuda? Nem pensar!”
Não fiquei nem revoltado. Fiquei mais foi triste. Acho um pensamento muito baixo e pouco democrático.
Depois que a ânsia de vômito passou, mudei de mesa. Afinal, política e religião, especialmente na família, melhor não discutir…

Até que enfim o eleitorado americano resolveu tomar vergonha na cara e impor pelo menos uma derrota ao Bush nesses seis anos. Depois da Guerra do Iraque, do Ato Patriótico e da Legalização da Tortura, finalmente decidiram que esse Congresso não servia mais, e trocaram boa parte deles.
Quer dizer, não que os democratas sejam lá grande coisa. Mas qualquer coisa é melhor que o Bush, convenhamos. Então, quase todas as vezes em que ele perde, o mundo ganha.
E que seja o primeiro passo para que os Estados Unidos resolvam fazer parte do mundo efetivamente. Mas não do mundo “tabuleiro de war” que eles acham que podem dominar. Um mundo multilateral, que privilegie as soluções negociadas. Que tal começar assinando o Tratado de Kyoto, hein?
Essa é mais uma da série “sentir-se parte do povão”. E o pior é que não vai servir para sensibilizar ninguém de nada.

O ex-ditador Saddam Hussein foi condenado ontem, pelo Tribunal Superior Penal do Iraque, à morte por enforcamento. Saddam foi considerado culpado pelo assassinato de 148 xiitas, em 1982.
No mérito do julgamento, acho que não há discussão. Eu não estava lá, mas acho altamente provável que o Saddam seja mesmo o responsável por essas mortes e mereça ser punido por isso.
Mas dois pontos precisam ser levantados. O primeiro, mais filosófico, diz respeito ao fato de um país passar por tantos anos de violência e ainda assim decidir por inserir a pena de morte em seu ordenamento jurídico. Parece que não se aprende nada com os erros do outro.
Como já dizia, brilhantemente, Machado de Assis:
“Tão certo é que a paisagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão.”
O segundo ponto é um pouco mais, digamos, jurídico. Trata-se da legitimidade que tem um tribunal para julgar um criminoso, em um país sob ocupação internacional. Que garantias há que o funcionamento do judiciário iraquiano não esteja sendo influenciado, ou mesmo dirigido diretamente, pelos americanos?
Em uma situação como essa, é possível questionar fortemente se os julgamentos produzem o resultado almejado pelo povo e pelas leis iraquianas, ou o que é politicamente mais interessante ao invasor.
Acredito que uma decisão dessa magnitude só possa ser tomada legitimamente em um país auto-governado, o que não é o caso. Mas, enfim, não é a primeira, nem será a última ingerência americana no mundo.


No pronunciamento que fez agora pouco em cadeia nacional, Lula voltou a insistir na necessidade de diálogo com a oposição. Na minha opinião, faz isso com dois propósitos. O primeiro, é para poder dizer, na hora que der tudo errado, que foi a oposição quem se recusou a conversar com ele. O segundo, realmente, é para estabelecer uma agenda mínima de reformas que todos entendem necessárias.
Não foram poucas as oportunidades, nos últimos quatro anos, em que a oposição boicotou o governo só pela graça de boicotar, talvez vingando-se dos oito anos de atitudes semelhantes por parte dos petistas então opositores. Exemplo disso foi a Medida Provisória que acabava com os bingos, mas que não foi aprovada por pura pirraça.
Difícil saber o quanto essa proposta de diálogo é verdade ou factóide. Como disse acima, acho que é um pouco de cada coisa. E se é para começar por alguma reforma, que seja a política, urgentemente.
Tenho defendido bastante o voto distrital como forma de baratear substancialmente as campanhas para o legislativo. Afinal, se cada candidato tiver que fazer campanha em somente 4 ou 5 bairros de São Paulo, poderá economizar sola de sapato, dinheiro em santinhos, e ainda aproximar eleitores dos eleitos. Acho que é a proposta mais urgente.
Se a reforma política andar rapidamente, sem surpresas de última hora, acho que a “concertação social” já terá dado mais frutos do que eu imagino ser possível.